Mostrando postagens com marcador Manaus. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Manaus. Mostrar todas as postagens

domingo, 30 de junho de 2013

A ERA DA BOSSA NOVA EM MANAUS

O movimento Bossa Nova surgiu impressionando com a forma intimista de tocar o instrumento. Surgiu no final da década de 50, Tinhorão (1998, p.310) relata sobre o grupo de moços da zona sul que iniciaram este movimento: “quase todos entre dezessete e vinte e dois anos, resolveu romper definitivamente com a herança do samba popular, para modificar o que lhe restava de original, ou seja, o próprio ritmo”.
Os precursores da Bossa Nova foram João Gilberto, Tom Jobim, Carlos Lyra, Elizeth Cardoso, entre outros, que além da nova forma de tocar, tinha uma poética de humor, de exaltação da vida urbana, à mulher.
A Bossa Nova revolucionou o ambiente musical no Brasil, suas influências foram Be-Bop uma vertente do jazz norte americano. Augusto de Campos (1974, p.18) relata as influências que a Bossa Nova sofreu antes de afirmar em 1958: Cremos ser conveniente registrar as influências sofridas pela Bossa Nova da parte de outras manifestações musicais do populário estrangeiro. Dentre estas, destacam-se, no caso, direta ou indiretamente,, o jazz e o be-bop (concepção jazzística surgida mais recentemente).
Em Manaus, a Bossa Nova começa a ser escutada pela Rádio Nacional e os cantores começam a aprender as músicas para cantar nos programas de rádio em Manaus, enquanto isso os jovens estavam aprendendo a tocar Bossa Nova em seu violão. Adelson Santos, músico e compositor em Manaus, relata que a juventude que estava começando a aprender violão tinha que tocar Bossa Nova que era a música do momento: A Bossa Nova foi a minha, além desse pessoal da seresta, desse pessoal mais antigo, a Bossa Nova foi a segunda lição de vida do ponto de vista musical, eu era obrigado no bom sentido prazerosamente falando, e tinha que tocar Bossa Nova que era a música do momento. Eu sabia tocar todas aquelas músicas: O Barquinho, Samba de uma nota só, ela foi chegar em 1960 e foi ai que bebi essa fase.
Ou seja, essa geração de 1960, aprendeu muito com o som da Bossa Nova, mas ainda não tinha uma formação musical suficiente para compor ao estilo, ainda estavam dançando nas festas Hi-Fi nos clubes da cidade.
De acordo com Adorno (2011) “as famosas palavras-chave atinentes a sua fases, tais como swing, be-bop e cool jazz constituem a um só tempo slogans publicitários e momentos de tal processo de absorção” (p.105). Assim se deu a Bossa Nova em Manaus, através de slogans publicitários, de chamadas para festas ou representações de algo inovador.
Durante os primeiros anos da década de 1960, a Bossa Nova vai ser ouvida nas Rádios da cidade de Manaus e o nome BOSSA NOVA começa a ser usado em notícias nos jornais para simbolizar algo diferente, renovador: TESTARÁ HOJE O TIME “BOSSA NOVA” DO RIO NEGRO; QUERMESSE BOSSA NOVA NA PARÓQUIA DE APARECIDA; PROGRAMA EM BOSSA NOVA.
A Bossa Nova, em Manaus, vai ser representada em 1968, não pelos jovens que estavam ouvindo e aprendendo a tocar violão, pois estes já estão sobre a influência da Jovem Guarda, mas através de um cronista social chamado Luis Pinto, apelidado por Little Box, o “Caixinha”, que viajava ao Rio de Janeiro no período do carnaval e retornava com notícias da high society guanabara para serem divulgadas em seu programa radiofônico “Night and days”; trazia as novidades também musicais: LP’s de Chico Buarque, Tom Jobim, Vinícius de Moraes.
Little Box foi considerado, na época, o representante oficial da Bossa Nova no Amazonas, começou a interpretar as canções de Chico Buarque, Tom e Vinícius, vivenciando a própria letra da canção em suas performances, criando um conjunto “The Sinners” que o acompanhava nas suas interpretações performáticas no Barés Clubes, o clube mais prestigiado na cidade.
É preciso salientar que não era uma produção original da Bossa Nova, não era um compositor do estilo Bossa Nova em Manaus, era uma interpretação, uma performance das canções, daquilo que já estava se fazendo há 8 anos com a chegada e a explosão da Bossa no Brasil. Adorno (2002, p.40) resume esta diversão em reproduzir o outro, na forma de aprender as canções no cinema e no rádio e nos discos, como acontecia nos festivais de dublagem, e nas apresentações de Little Box: “É o que se vê já pelo fato de a diversão ser apresentada apenas como reprodução; cinefotografia ou audição de rádio”.
A outra referência que se tem é Fernando Borges e sua orquestra Bossa Nova, mas Little Box foi o principal divulgador da Bossa, motivando o gosto por esta forma de tocar e cantar e criando um público, formando platéia, fazendo a Bossa conhecida e ouvida, e num período em que a juventude manauense estava ao ritmo da Jovem Guarda e dos festivais, e os artistas sendo os próprios Beatles, Roberto Carlos e Erasmo Carlos.
Little Box, Jornal do Commercio,  28.09.1969.

Jornal do Commercio, 26.04.1964.

A LENDA DA ILHA DE MARAPATÁ - MÚSICA E HISTÓRIA

“É Marapatá, porta de Manaus, é Marapatá, patati patatá”. Música de nossos compositores Armando de Paula e Anibal Beça que traduziram em canção a lenda da Ilha de Marapatá.
A ilha de Marapatá é conhecida como a Ilha da Consciência, está situada na foz do Rio Negro, no Estado do Amazonas. Segundo a lenda, é o limite da consciência do homem civilizado: quem sobe o Amazonas deixa a vergonha em Marapatá. Então, quantas histórias, estórias e lendas esta ilha esconde em seu dorso até hoje!!
A lenda diz que aquele que passava por ela estava se anulando de suas raízes, se eximindo de sua identidade cultural, ou seja, suas raízes culturais, suas atitudes e comportamentos se modificariam com o lugar, perdendo a vergonha, a moral. Na primeira estrofe, a música já alerta que esta ilha é misteriosa: Que doce mistério abriga teu dorso de ilha afogada no curso das mágoas? Que mana maninha que dança sozinha savana de seda pavana de cio. Campim canarana bubuia banzando, canção enrugada, banzeiro de rio.
Com o passar do tempo a lenda foi sendo modificada, mas sua essência de ilha misteriosa não foi descartada. Vejamos algumas mudanças desde Euclides da Cunha a Mario Ypiranga.
Euclides da Cunha, em suas viagens pelos rios da Amazônia já definia a ilha de Marapatá como tendo uma função preocupante, assustadora, dizia ele que era um local lazarento de almas na fantasia popular: quem chegava deixava sua consciência na ilha, ou seja, um local contaminado, as consciências eram contaminadas, as identidades culturais eram alteradas. Um exemplo: transformava um homem santo em um devasso. Essas trocas de identidades culturais do homem que se estabeleceu na Amazônia favoreceram que a lenda fosse mais enfatizada para justificar a mudança de comportamento para os advindos à terra do ouro branco. Como a história conta, o período da borracha foi uma época de muita riqueza e de muita solidão na selva: de queimar charutos com cédulas a comportamentos estereotipados que o local proporcionava.
Mario Ypiranga em 05 de outubro de 1963, no Jornal do Folclore, descreveu o mito através do Sr Rufino Santiago, que tinha uma serraria na enseada da ilha, desvendando o seu mistério: “trata-se de um duende meio homem meio bicho, nomeado Jumutimpora ou Iumutimpora, versão oposta do Mapinguari. Êsse Jumutimpora ao contrário de seus parentes quiméricos é inofensivo para certa casta de indivíduos e de uma periculosidade fatal para outros, conforme o caráter destes. Habita milenarmente a ilha misteriosa deslocando-se rapidamente. Não se interessa por pessoas de bons costumes, generosas, a quem auxilia, mostrando-se mesmo de uma prontidão corderil. De outro modo ataca e estigmatiza para sempre a quantos se ressentem de boas qualidades. Coisa notável, não devora as vítimas, apenas toma-as sob sua tutela pelo menos enquanto o freguês não se transforma moralmente. É um bicho bom, mas inimigo de pessoas trapaceiras”.
Hoje temos a música Marapatá que foi a maneira de conhecer esta lenda tão antiga na nossa cidade. A lenda traduzida em versos e música sobre o imaginário popular de um século atrás, mas o recado é o mesmo: Vá logo deixando senhor forasteiro a sua vergonha. Em Marapatá vergonha se verga na cuia do ventre, no V das ilhargas vincando por lá.[...] Mas dependendo da sua índole, o bicho que habita nela pode surgir e fazer você deixar a consciência e a vergonha na ilha. Talvez hoje este bicho bom esteja adormecido, mas quando acordar preparem-se os trapaceiros desta cidade!!!!

É Marapatá, porta de Manaus, é Marapatá patati, patata...

sábado, 29 de junho de 2013

NA DÉCADA DE 60 O JORNAL DO COMMERCIO TINHA COLUNA MUSICAL ASSINADA POR NELSON PORTO - Publicado em 03.01.2012 - Lucyanne Afonso

Os jornais de Manaus na década de 1960 como o Jornal do Commercio, O Jornal, Diário da Tarde, A Crítica e a Notícia eram os periódicos que circulavam na cidade, mas o que se destacava era o Jornal do Commercio, pois apresentava notícias variadas, principalmente apresentando o circuito artístico da cidade, mostrando notícias da música nacional, internacional e consagrando os artistas da região de reconhecimento nacional como o pianista Arnaldo Rebello, os cantores Roberto Carreira e Hidinildo Pereira. Além de divulgar as Rádios locais, principalmente a Rádio Baré.
Os jornais foram grandes parceiros das Rádios, eram através deles que se conhecia a programação, os programas e divulgavam constantemente os artistas famosos que iriam se apresentar. Como exemplo, a figura ao lado, divulga o famoso cantor Roberto Carreira que iria se apresentar na Rádio Baré. (Jornal do Commercio, 11 de jul. 1965.
Nos anos de 1967 e 1968, o Jornal do Commercio anunciava quinzenalmente a Coluna Musical de Nelson Porto.
Nelson Porto foi Professor e Diretor da Faculdade de Engenharia da Ufam, tornou-se colunista do Jornal do Commercio por ser um grande amante da música clássica. Sua Coluna Musical tratava de temas sobre o Teatro Amazonas, mostrava os significados dos termos musicais, escrevia sobre os instrumentos musicais, principalmente sobre a Orquestra Sinfônica, o maestro Dirson Costa e as novidades da música erudita.
A Coluna servia para os estudos da música, como o mesmo destacava nas colunas que era para analisar a apreciação musical. A Coluna Musical de Nelson Porto surgiu quando Manaus estava mais desenvolvida econômica e culturalmente, período em que a música teve seu ápice na produção local.
Nelson Porto (1968) comenta na sua Coluna Musical, datada em 28 de janeiro de 1968 no Jornal do Commercio, sobre o desenvolvimento cultural em Manaus e este desenvolvimento estava sendo como uma luz na mente do povo, Manaus estava tendo a possibilidade de vivenciar a vida cultural e artística.

Cremos que um dos fatores preponderantes para o desenvolvimento cultural e artístico de um povo é o que provem de uma vivência desse mesmo povo nas manifestações desse gênero. Há muito que o Amazonas vivia sem a possibilidade de ter uma vida cultural e artística desenvolvida. A escuridão que nos cercava além de ser própria era também figurada. Isto é, não havia iluminação nas residências e ruas, como não havia “luz” na mente de seu povo. Cremos que em mais de 20 anos, as demonstrações artísticas que aqui se deram foram por mero acaso.

Esta declaração de Nelson Porto na sua Coluna Musical enfatiza uma nova etapa na vida cultural da cidade: com a criação de órgãos culturais dando ênfase nos programas artísticos e culturais, além da criação do Conservatório de Música “Joaquim Franco” em que passou a ser administrado pela Universidade do Amazonas em 1968, foi uma das atividades culturais que permaneceu por muito tempo. Na figura abaixo mostra o Colunista ao centro de óculos escuros em uma festa da Rádio Rio Mar.



Os três Serviços de Rádio-Comunicação (Rádio, Televisão e os jornais), principalmente as emissoras de Rádio e os Jornais tiveram papel fundamental para a propagação da música em Manaus, através deles, foi criado um processo de difusão cultural na cidade.
Os periódicos, antes da vinda do Rádio, foram os principais meios de informação na cidade, com a chegada do Rádio e posteriormente do Cinema, os jornais se tornaram parceiros desses meios de comunicação, havendo uma reciprocidade em divulgar as programações e os eventos que as Rádios promoviam e movimentavam todo o espaço vivido na cidade de Manaus.
Nelson Porto (óculos) festa da Rádio Rio Mar, em 1968.