domingo, 30 de junho de 2013

MÚSICA: MEMÓRIA E HISTÓRIA DA CIDADE

 Quando vi, lá estava ela: uma preciosidade aos olhos de um pesquisador... a partitura jogada no canto da Biblioteca, com teias de aranha e muito suja. De início não sabia o valor que ela tinha, hoje ela conta a história de nossa sociedade.” (Lucyanne Afonso)
Assim que ficamos conhecendo a história de muitos artistas de séculos passados: de um papel sujo que, a nossa percepção é sem valor no canto da Biblioteca, tem informações que podem descrever uma história social e cultural de uma determinada época.
É isso que muitos pesquisadores fazem.
    As fontes não são somente as orais, são as imagens, os vídeos, os documentos, as partituras, os escritos antigos. Por exemplo, os instrumentos musicais antigos que hoje temos conhecimento como a harpa, o alaúde, os tambores de guerra, címbalos, sistro (egípcios); a rabeca do poeta, o rabab, e o adufe (árabes); vina, címbalos, tambores e o ravanastron (indianos); king e tcheng (chineses); shofar, saltério, harpa, kerem e pratos (hebraicos), é porque documentos, medalhões, inscrições, papiros e baixo-relevos e citações de obras de grandes filósofos foram as fontes para se conhecer esse passado musical.
         O processo não vai ser diferente para outros séculos e épocas!
       Se hoje conhecemos a música barroca de Bach, as trovas improvisadas de Domingos Caldas Barbosa ao som da viola de corda de arame do século XVIII, as obras de Chiquinha Gonzaga, a música em Manaus no período da borracha, o Conservatório de Música Joaquim Franco em Manaus, Delfim de Sá o maior ícone da dublagem em Manaus na década de 1960, enfim, essas informações foram delineadas a partir de fatos mostrados por imagens, vídeos ou por um papel velho no canto da Biblioteca.
     Quem não quer conhecer a história musical de nossa cidade? Tem tanta coisa a pesquisar, a ser decifrada em todas as subáreas da música!!
        Conhecemos nossa cidade a partir do olhar de Djalma Batista, Márcio Souza, Thiago de Mello, Aníbal Beça, escritores e poetas consagrados em nossa região que delinearam uma história sociocultural de Manaus.
     Aproveito para colocar em cena o nome de pesquisadores que muitos desconhecem, mas que estão realizando um trabalho na academia para dar continuidade e não deixar a memória artística de nossa cidade ser esquecida, como Evany Nascimento (Patrimônio Cultural em Manaus); Mariana Baldoino (Teatro Amazônico), Lucyanne Afonso (Música Popular na década de 1960), Mauro Menezes (Narrativas Musicais de um grupo de artistas), João Gustavo Kienen (pianista Arnaldo Rebello), Priscila Pinto (artista plástica Bernadete Andrade), enfim, onde tem arte, tem artistas e tem pesquisadores.
    O artista vivencia, é a essência de tudo que ele experimenta de valores, hábitos, costumes e comportamentos; o pesquisador traduz tudo em conhecimento.
Parabenizo um movimento que se chama ABRE BIBLIOTECA, movimento que ganhou voz e que é composto por estudantes, comunidade, professores, pesquisadores. A Biblioteca de portas abertas é como se fosse um baú cheio de histórias para serem contadas, decifradas, pesquisadas e a história construída. Vamos ler, vamos escrever! Só assim adquirimos conhecimento: através da informação.

   
Caro amigo leitor, não jogue fora uma partitura antiga que encontrou no porão da casa, ou uma foto, ou as pinturas de um artista plástico desconhecido, ou a gravação em uma fita cassete de um cantor desconhecido. Nas mãos dos pesquisadores, isso tudo vira fato, vira história, se torna memória.

QUAL SUA PROFISSÃO? EU SOU ARTISTA

“Afina o instrumento rápido”, “Merda pra todos”, “Olha o retorno”, “Cadê meu figurino”, “Luz, câmera e ação”, “A estreia é hoje”
“TENHAM UM BOM ESPETÁCULO!!!”
Não poderíamos deixar de homenagear hoje, no dia do trabalho, o trabalhador das Artes em Manaus: da dança, do teatro, do cinema, das artes plásticas, da música, do circo, da poesia, da fotografia, enfim, de todos os artistas que tanto nos alegram, nos engrandecem de fantasia e de emoção, mas ao mesmo tempo, fazem da arte seu sustento e sua vida!
Viver de arte em Manaus, não é tão simples e nunca foi tão fácil assim assim ...! Como bem disse Stravinsky: 10% de inspiração e 90% de transpiração.Para um grupo de teatro ou de dança produzir um espetáculo, para um artista plástico fazer uma exposição ou grupo musical realizar um concerto, leva tempo, patrocínio e muito amor ao que se faz; todo o vislumbre que vemos no palco tem meses de preparação, de sacrifícios: ensaios, ensaios e mais ensaios, entre risadas, confusões, choros, interpretações, maquiagem, afinações, sapateados e ilusões, o que prevalece é a arte, é a estética apresentada, o que dá prazer ao artista e aos expectadores.
É... São coisas da profissão, é preciso disciplina e entrega...
Quisera eu ter o dom de um palhaço para provocar risadas; de um ator para nos deleitar entre o real e o irreal; de um músico para nos transportar as nossas lembranças com seus acordes; dos nossos olhos bailarem com a leveza de uma bailarina ou nosso corpo dançar com a firmeza do batidão; de poder pintar nossos pensamentos com texturas e cores.
Cito um trecho do poema de Glícia Manso Paganotto O ARTISTA: “[...] Ah! Mágicos do destino que a tudo transformam pela crítica ou não. Seríamos certamente mais pobres, se do mundo não nos dessem sua visão. [...] Entendê-los é uma pretensão, senti-los talvez não! Depende somente daquele momento mágico quando colocamos o sentimento acima da razão”.
Imagine um mundo sem arte, nem artistas...
Um mundo sem música, sem cor, sem poesia...
Seria assim como um homem sem alma. E assim construiremos palcos, cenários para viver nossos sonhos entre luzes brandas e músicas invisíveis!
“APLAUSOS, BRAVO, BRAVÍSSIMO!!!!!!!”





A ERA DA BOSSA NOVA EM MANAUS

O movimento Bossa Nova surgiu impressionando com a forma intimista de tocar o instrumento. Surgiu no final da década de 50, Tinhorão (1998, p.310) relata sobre o grupo de moços da zona sul que iniciaram este movimento: “quase todos entre dezessete e vinte e dois anos, resolveu romper definitivamente com a herança do samba popular, para modificar o que lhe restava de original, ou seja, o próprio ritmo”.
Os precursores da Bossa Nova foram João Gilberto, Tom Jobim, Carlos Lyra, Elizeth Cardoso, entre outros, que além da nova forma de tocar, tinha uma poética de humor, de exaltação da vida urbana, à mulher.
A Bossa Nova revolucionou o ambiente musical no Brasil, suas influências foram Be-Bop uma vertente do jazz norte americano. Augusto de Campos (1974, p.18) relata as influências que a Bossa Nova sofreu antes de afirmar em 1958: Cremos ser conveniente registrar as influências sofridas pela Bossa Nova da parte de outras manifestações musicais do populário estrangeiro. Dentre estas, destacam-se, no caso, direta ou indiretamente,, o jazz e o be-bop (concepção jazzística surgida mais recentemente).
Em Manaus, a Bossa Nova começa a ser escutada pela Rádio Nacional e os cantores começam a aprender as músicas para cantar nos programas de rádio em Manaus, enquanto isso os jovens estavam aprendendo a tocar Bossa Nova em seu violão. Adelson Santos, músico e compositor em Manaus, relata que a juventude que estava começando a aprender violão tinha que tocar Bossa Nova que era a música do momento: A Bossa Nova foi a minha, além desse pessoal da seresta, desse pessoal mais antigo, a Bossa Nova foi a segunda lição de vida do ponto de vista musical, eu era obrigado no bom sentido prazerosamente falando, e tinha que tocar Bossa Nova que era a música do momento. Eu sabia tocar todas aquelas músicas: O Barquinho, Samba de uma nota só, ela foi chegar em 1960 e foi ai que bebi essa fase.
Ou seja, essa geração de 1960, aprendeu muito com o som da Bossa Nova, mas ainda não tinha uma formação musical suficiente para compor ao estilo, ainda estavam dançando nas festas Hi-Fi nos clubes da cidade.
De acordo com Adorno (2011) “as famosas palavras-chave atinentes a sua fases, tais como swing, be-bop e cool jazz constituem a um só tempo slogans publicitários e momentos de tal processo de absorção” (p.105). Assim se deu a Bossa Nova em Manaus, através de slogans publicitários, de chamadas para festas ou representações de algo inovador.
Durante os primeiros anos da década de 1960, a Bossa Nova vai ser ouvida nas Rádios da cidade de Manaus e o nome BOSSA NOVA começa a ser usado em notícias nos jornais para simbolizar algo diferente, renovador: TESTARÁ HOJE O TIME “BOSSA NOVA” DO RIO NEGRO; QUERMESSE BOSSA NOVA NA PARÓQUIA DE APARECIDA; PROGRAMA EM BOSSA NOVA.
A Bossa Nova, em Manaus, vai ser representada em 1968, não pelos jovens que estavam ouvindo e aprendendo a tocar violão, pois estes já estão sobre a influência da Jovem Guarda, mas através de um cronista social chamado Luis Pinto, apelidado por Little Box, o “Caixinha”, que viajava ao Rio de Janeiro no período do carnaval e retornava com notícias da high society guanabara para serem divulgadas em seu programa radiofônico “Night and days”; trazia as novidades também musicais: LP’s de Chico Buarque, Tom Jobim, Vinícius de Moraes.
Little Box foi considerado, na época, o representante oficial da Bossa Nova no Amazonas, começou a interpretar as canções de Chico Buarque, Tom e Vinícius, vivenciando a própria letra da canção em suas performances, criando um conjunto “The Sinners” que o acompanhava nas suas interpretações performáticas no Barés Clubes, o clube mais prestigiado na cidade.
É preciso salientar que não era uma produção original da Bossa Nova, não era um compositor do estilo Bossa Nova em Manaus, era uma interpretação, uma performance das canções, daquilo que já estava se fazendo há 8 anos com a chegada e a explosão da Bossa no Brasil. Adorno (2002, p.40) resume esta diversão em reproduzir o outro, na forma de aprender as canções no cinema e no rádio e nos discos, como acontecia nos festivais de dublagem, e nas apresentações de Little Box: “É o que se vê já pelo fato de a diversão ser apresentada apenas como reprodução; cinefotografia ou audição de rádio”.
A outra referência que se tem é Fernando Borges e sua orquestra Bossa Nova, mas Little Box foi o principal divulgador da Bossa, motivando o gosto por esta forma de tocar e cantar e criando um público, formando platéia, fazendo a Bossa conhecida e ouvida, e num período em que a juventude manauense estava ao ritmo da Jovem Guarda e dos festivais, e os artistas sendo os próprios Beatles, Roberto Carlos e Erasmo Carlos.
Little Box, Jornal do Commercio,  28.09.1969.

Jornal do Commercio, 26.04.1964.

AS FESTAS HI-FI NOS CLUBES DE MANAUS

Como seria um som Hi-Fi? O que este som proporcionou à juventude da década de 1960?
Primeiramente vamos ao significado da palavra: em inglês quer dizer High Fidelity, traduzindo para o português Alta Fidelidade. Significava que o aparelho podia reproduzir sons fiéis à realidade.
Este aparelho eletrônico possibilitava a apreciação com clareza e sem interferências de ruídos. Eram com esses aparelhos que os clubes de Manaus faziam as boates, os bailes, o carnaval, as festas dançantes, podemos dizer que era a “sensação do momento”, algo inovador como as modernas caixas acústicas atuais.
Os aparelhos Hi-Fi eram amplificadores stereo com receptores FM, eram toca-discos e tape-decks independentes. Podiam ser colocados no carro ou utilizados nas festas dos clubes que eram constantes no início da década de 60. Foi a partir de seu uso nas festas dos clubes que passou a ser intitulado nos anúncios dos jornais como ritmo, divulgando que o ritmo daquela determinada festa era Hi-Fi, ou seja, um som de alto nível e qualidade que tocava os estilos mais dançantes, modernos e de sucessos das rádios.
As músicas que estavam no auge eram Rey Conif, da Vereda Tropical, os rock’s como Beatles, Elvis, The Fevers, os Pholhas, Trio Uiraquitã, Elizete Cardoso, Cely Campelo. As festas HiFi eram totalmente dançantes, eram jovens, senhoras e senhores, mas para os jovens tinham as manhãs de sol, os mingaus dançantes, a festa Moranguinho era no Ideal Clube que começava a tarde e encerrava umas 8 horas da noite.
O evento “Studio Disco” do Studio 5 é uma forma de você voltar aquela época, mas agora com Dj e todo aparato tecnológico sonoro, de retornar àqueles tempos dançantes ao som de um aparelho Hi-Fi, que determinou não somente a sua alta modernidade sonora como também tudo que era moderno se tornou Hi-Fi: discos de vinil Hi-Fi, ritmo Hi-Fi, até mesmo a bebida virou Hi-Fi: um drink feito de vodka, refrigerante de laranja e gelo. 
Além do ritmo Hi-Fi, existiam também as Tertúlias Dançantes que eram reuniões de amigos, familiares e associados dos clubes para não somente dançar, mas também discutir vários temas, não era tão contínuas quanto as festas Hi-Fi. Eram tardes dançantes nos clubes da cidade e com os nomes específicos de "mingau dançante" nas domingueiras vespertinas do Ideal Clube, e "papinha dançante" no Cheik Clube. 
O ritmo Hi-Fi permaneceu até meados de 1964, quando a partir desta data, um novo formato musical começa a emergir com a Jovem Guarda.

A VOZ FEMININA EM MANAUS NA DÉCADA DE 60

As Cantoras da Rádio Nacional, assim como outras, por exemplo: Angela Maria, Nara Leão, Sylvia Telles, emergiram a mulher no mundo da música no Brasil, considerando que não eram vistas com bons olhos pela sociedade da época.
Na Rádio Nacional havia as cantoras do Rádio: “Carmélia, o baião; Carminha, com sua voz de contralto, a fossa; e Ellen, com sua habilidade de soprano, não se fixava em um estilo nem gênero, mas tinha liberdade para cantar os clássicos e Violeta tinha o samba no corpo e na voz” (site do Estadão de São Paulo, repórter Luis Carlos Merten, 2009). Todas eram funcionárias da Rádio Nacional e sua função era cantar nos programas.
Em Manaus tivemos muitas artistas femininas que também eram funcionárias das Rádios e cantavam nos programas. Podemos citar poucos conjuntos e artistas femininas nesse circuito: o Conjunto Feminino “Musas do Ritmo” composto pelas seguintes senhorinhas: Felisbela Simões, Zelinda Simões, Doroteia Moreira, Terezinha Montefusco, Marly Inês, Linda Simões, Kay Francis e Clothilde Charomm. Cantoras que cantavam e eram funcionárias das Rádios Difusora, Baré e Tropical nos programas musicais como: Sebastiana Moreira, Shyrley Maria, Maria Aparecida, Katia Maria, Marlene Santana, Arminda Oliveira, Maria das Dores, a rainha da dublagem Eline Santana.
Destaca-se, entre esses nomes, a artista Katia Maria: entrou na Rádio Difusora em 1958, cantava no estúdio da Rádio e cantava na noite sem o pai saber que era ela, devido à mudança de seu nome.
Outros grupos musicais femininos estavam presentes no cenário musical em Manaus, mas não estavam atrelados a uma Rádio como o grupo As Pequenas Cantoras de Manaus, destacaram-se nos Boites dos clubes, principalmente do Atlético Rio Negro, mas não tiveram tanta expressividade e sequência de trabalho.
Um grupo que teve grande prestígio foi a Banda Feminina do Instituto Benjamin Constant: participou do concurso de bandas colegiais promovido pelo Ministério da Educação, em 1966, e conseguiu um segundo lugar em âmbito nacional. Na notícia do Jornal do Commercio, 29 de dezembro de 1966, a Irmã comemora o título, no tempo que o Instituto era administrado pelas freiras: “Disse a Irmã que fizeram jus a um prêmio de um milhão e duzentos mil cruzeiros e que com esse dinheiro mandaram preparar uma gravação com as quatro músicas as quais competiram no concurso”. A banda retornou com homenagens, estampando esta grande vitória e conquista nos jornais cariocas e da cidade.
Em 1967, iniciou um marketing voltado para as mulheres: a indústria cultural estava apostando numa demanda maior de vendas possibilitando o incentivo a mulheres no mercado artístico.
A notícia do Jornal do Commercio, 21 de maio de 1967, sobre a cantora Maura Moreira leva-nos a analisar que a indústria fonográfica estava apostando num mercado feminino e ao mesmo tempo mudando o papel da mulher no meio artístico, o próprio título da matéria é bem sugestivo: MULHERES E DISCOS.
Não só as Orquestras, os Bailes Hi-Fi, as Tertúlias dançantes que faziam parte do cenário musical em Manaus na década de 1960, a representação feminina na música estava presente nas diversas formas de tocar: banda, dublagem, entre outros, mas não tinha tanto espaço quanto os Ritmos e as Orquestras inicialmente.

A participação feminina neste cenário, apesar de mínima, foi bastante representativa num espaço dominado por orquestras e bandas, as cantoras se centravam em realizar os programas de auditório das Rádios, que estava no auge em Manaus, era o local onde os cantores mostravam seus talentos para trilhar numa carreira artística e ter como professores de música os grandes cantores da Rádio Nacional como Ângela Maria, Nara Leão, Sylvia Telles, Jair Rodrigues, entre outros.

A LENDA DA ILHA DE MARAPATÁ - MÚSICA E HISTÓRIA

“É Marapatá, porta de Manaus, é Marapatá, patati patatá”. Música de nossos compositores Armando de Paula e Anibal Beça que traduziram em canção a lenda da Ilha de Marapatá.
A ilha de Marapatá é conhecida como a Ilha da Consciência, está situada na foz do Rio Negro, no Estado do Amazonas. Segundo a lenda, é o limite da consciência do homem civilizado: quem sobe o Amazonas deixa a vergonha em Marapatá. Então, quantas histórias, estórias e lendas esta ilha esconde em seu dorso até hoje!!
A lenda diz que aquele que passava por ela estava se anulando de suas raízes, se eximindo de sua identidade cultural, ou seja, suas raízes culturais, suas atitudes e comportamentos se modificariam com o lugar, perdendo a vergonha, a moral. Na primeira estrofe, a música já alerta que esta ilha é misteriosa: Que doce mistério abriga teu dorso de ilha afogada no curso das mágoas? Que mana maninha que dança sozinha savana de seda pavana de cio. Campim canarana bubuia banzando, canção enrugada, banzeiro de rio.
Com o passar do tempo a lenda foi sendo modificada, mas sua essência de ilha misteriosa não foi descartada. Vejamos algumas mudanças desde Euclides da Cunha a Mario Ypiranga.
Euclides da Cunha, em suas viagens pelos rios da Amazônia já definia a ilha de Marapatá como tendo uma função preocupante, assustadora, dizia ele que era um local lazarento de almas na fantasia popular: quem chegava deixava sua consciência na ilha, ou seja, um local contaminado, as consciências eram contaminadas, as identidades culturais eram alteradas. Um exemplo: transformava um homem santo em um devasso. Essas trocas de identidades culturais do homem que se estabeleceu na Amazônia favoreceram que a lenda fosse mais enfatizada para justificar a mudança de comportamento para os advindos à terra do ouro branco. Como a história conta, o período da borracha foi uma época de muita riqueza e de muita solidão na selva: de queimar charutos com cédulas a comportamentos estereotipados que o local proporcionava.
Mario Ypiranga em 05 de outubro de 1963, no Jornal do Folclore, descreveu o mito através do Sr Rufino Santiago, que tinha uma serraria na enseada da ilha, desvendando o seu mistério: “trata-se de um duende meio homem meio bicho, nomeado Jumutimpora ou Iumutimpora, versão oposta do Mapinguari. Êsse Jumutimpora ao contrário de seus parentes quiméricos é inofensivo para certa casta de indivíduos e de uma periculosidade fatal para outros, conforme o caráter destes. Habita milenarmente a ilha misteriosa deslocando-se rapidamente. Não se interessa por pessoas de bons costumes, generosas, a quem auxilia, mostrando-se mesmo de uma prontidão corderil. De outro modo ataca e estigmatiza para sempre a quantos se ressentem de boas qualidades. Coisa notável, não devora as vítimas, apenas toma-as sob sua tutela pelo menos enquanto o freguês não se transforma moralmente. É um bicho bom, mas inimigo de pessoas trapaceiras”.
Hoje temos a música Marapatá que foi a maneira de conhecer esta lenda tão antiga na nossa cidade. A lenda traduzida em versos e música sobre o imaginário popular de um século atrás, mas o recado é o mesmo: Vá logo deixando senhor forasteiro a sua vergonha. Em Marapatá vergonha se verga na cuia do ventre, no V das ilhargas vincando por lá.[...] Mas dependendo da sua índole, o bicho que habita nela pode surgir e fazer você deixar a consciência e a vergonha na ilha. Talvez hoje este bicho bom esteja adormecido, mas quando acordar preparem-se os trapaceiros desta cidade!!!!

É Marapatá, porta de Manaus, é Marapatá patati, patata...

sábado, 29 de junho de 2013

NA DÉCADA DE 60 O JORNAL DO COMMERCIO TINHA COLUNA MUSICAL ASSINADA POR NELSON PORTO - Publicado em 03.01.2012 - Lucyanne Afonso

Os jornais de Manaus na década de 1960 como o Jornal do Commercio, O Jornal, Diário da Tarde, A Crítica e a Notícia eram os periódicos que circulavam na cidade, mas o que se destacava era o Jornal do Commercio, pois apresentava notícias variadas, principalmente apresentando o circuito artístico da cidade, mostrando notícias da música nacional, internacional e consagrando os artistas da região de reconhecimento nacional como o pianista Arnaldo Rebello, os cantores Roberto Carreira e Hidinildo Pereira. Além de divulgar as Rádios locais, principalmente a Rádio Baré.
Os jornais foram grandes parceiros das Rádios, eram através deles que se conhecia a programação, os programas e divulgavam constantemente os artistas famosos que iriam se apresentar. Como exemplo, a figura ao lado, divulga o famoso cantor Roberto Carreira que iria se apresentar na Rádio Baré. (Jornal do Commercio, 11 de jul. 1965.
Nos anos de 1967 e 1968, o Jornal do Commercio anunciava quinzenalmente a Coluna Musical de Nelson Porto.
Nelson Porto foi Professor e Diretor da Faculdade de Engenharia da Ufam, tornou-se colunista do Jornal do Commercio por ser um grande amante da música clássica. Sua Coluna Musical tratava de temas sobre o Teatro Amazonas, mostrava os significados dos termos musicais, escrevia sobre os instrumentos musicais, principalmente sobre a Orquestra Sinfônica, o maestro Dirson Costa e as novidades da música erudita.
A Coluna servia para os estudos da música, como o mesmo destacava nas colunas que era para analisar a apreciação musical. A Coluna Musical de Nelson Porto surgiu quando Manaus estava mais desenvolvida econômica e culturalmente, período em que a música teve seu ápice na produção local.
Nelson Porto (1968) comenta na sua Coluna Musical, datada em 28 de janeiro de 1968 no Jornal do Commercio, sobre o desenvolvimento cultural em Manaus e este desenvolvimento estava sendo como uma luz na mente do povo, Manaus estava tendo a possibilidade de vivenciar a vida cultural e artística.

Cremos que um dos fatores preponderantes para o desenvolvimento cultural e artístico de um povo é o que provem de uma vivência desse mesmo povo nas manifestações desse gênero. Há muito que o Amazonas vivia sem a possibilidade de ter uma vida cultural e artística desenvolvida. A escuridão que nos cercava além de ser própria era também figurada. Isto é, não havia iluminação nas residências e ruas, como não havia “luz” na mente de seu povo. Cremos que em mais de 20 anos, as demonstrações artísticas que aqui se deram foram por mero acaso.

Esta declaração de Nelson Porto na sua Coluna Musical enfatiza uma nova etapa na vida cultural da cidade: com a criação de órgãos culturais dando ênfase nos programas artísticos e culturais, além da criação do Conservatório de Música “Joaquim Franco” em que passou a ser administrado pela Universidade do Amazonas em 1968, foi uma das atividades culturais que permaneceu por muito tempo. Na figura abaixo mostra o Colunista ao centro de óculos escuros em uma festa da Rádio Rio Mar.



Os três Serviços de Rádio-Comunicação (Rádio, Televisão e os jornais), principalmente as emissoras de Rádio e os Jornais tiveram papel fundamental para a propagação da música em Manaus, através deles, foi criado um processo de difusão cultural na cidade.
Os periódicos, antes da vinda do Rádio, foram os principais meios de informação na cidade, com a chegada do Rádio e posteriormente do Cinema, os jornais se tornaram parceiros desses meios de comunicação, havendo uma reciprocidade em divulgar as programações e os eventos que as Rádios promoviam e movimentavam todo o espaço vivido na cidade de Manaus.
Nelson Porto (óculos) festa da Rádio Rio Mar, em 1968.